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João Eduardo Justi - Publicado em 13-10-2026 10:00
Pesquisa propõe estratégia sustentável para descontaminar solos
Ideia é enfrentar os resíduos de atrazina, herbicida utilizado na agricultura (Fotos: Kauan Costa)
Ideia é enfrentar os resíduos de atrazina, herbicida utilizado na agricultura (Fotos: Kauan Costa)

Uma estratégia prática que reúne carvão vegetal, plantas e microrganismos pode contribuir para descontaminar solos afetados pela atrazina, herbicida amplamente utilizado na agricultura brasileira. A proposta é apresentada em estudo desenvolvido com participação da UFSCar e publicado recentemente no periódico científico internacional Discover Plants (Editora Springer-Nature), uma das mais prestigiadas editoras científicas do mundo. 

O trabalho tem como primeiro autor Kauan Rodrigo Costa Maligeski, estudante do curso de Engenharia Agronômica do Campus Lagoa do Sino da UFSCar. A pesquisa foi desenvolvida durante sua iniciação científica, como bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic/CNPq), no ciclo 2025/2026, sob orientação de Daniel Baron, docente do Centro de Ciências da Natureza (CCN) da UFSCar, e coorientação de Rômulo Carleial, pesquisador do Royal Botanic Gardens, Kew, no Reino Unido. O financiamento foi concedido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). 

O artigo parte de um problema relevante para a agricultura e o meio ambiente. A atrazina é utilizada principalmente no cultivo de milho e cana-de-açúcar para o controle de plantas daninhas. Segundo dados reunidos pelos pesquisadores, aproximadamente 22 mil toneladas do herbicida foram comercializadas no Brasil em 2023. Sua persistência pode levar à presença de resíduos no solo e à contaminação de águas superficiais e subterrâneas. Na União Europeia, seu uso foi proibido em 2004 diante de preocupações relacionadas à saúde humana e ao acúmulo da substância no ambiente. 

Três aliados contra a contaminação
Diante desse cenário, os pesquisadores propõem uma estratégia integrada de remediação baseada em três componentes: biochar, um material rico em carbono obtido pela transformação térmica de resíduos orgânicos; o feijão-de-porco (Canavalia ensiformis L.); e bactérias do gênero Pseudomonas. A hipótese é que a atuação combinada dos três componentes possa ser mais eficiente do que seu emprego isolado. 

"A novidade científica do estudo é o sinergismo coordenado entre três fatores: o biochar, um tipo de carvão vegetal altamente poroso produzido a partir de resíduos orgânicos; a planta conhecida popularmente como feijão-de-porco; e bactérias. Ao atuar de forma isolada, as técnicas convencionais de despoluição costumam apresentar eficiência limitada no campo", explica Baron.

Cada um desses fatores desempenharia uma função complementar. Devido à sua estrutura porosa, o biochar é capaz de adsorver moléculas de atrazina, reduzindo sua mobilidade e disponibilidade imediata no ambiente. O material também pode melhorar propriedades do solo, como a retenção de água e nutrientes, e oferecer microambientes favoráveis à colonização por microrganismos. 

O feijão-de-porco, por sua vez, apresenta crescimento rápido e sistema radicular profundo e ramificado. Suas raízes liberam açúcares, ácidos orgânicos e aminoácidos que podem servir como fontes de carbono e energia para os microrganismos presentes na região próxima às raízes, a chamada rizosfera. Entre esses estão bactérias do gênero Pseudomonas, capazes de atuar na degradação de contaminantes. 

As bactérias completam a estratégia proposta. Algumas Pseudomonas possuem vias enzimáticas capazes de transformar a atrazina progressivamente até sua mineralização em produtos como dióxido de carbono (CO2) e amônio (NH4+). Assim, enquanto o biochar regula a disponibilidade do contaminante e favorece a colonização microbiana, a planta estimula a atividade dos microrganismos e as bactérias atuam diretamente na degradação do herbicida. 

Uma proposta a ser levada ao campo
A integração dos três componentes é o principal diferencial da proposta. Em vez de depender de um único agente, o sistema busca combinar processos físicos, químicos e biológicos. As evidências reunidas no artigo indicam que essa interação tem potencial para favorecer a descontaminação e, simultaneamente, melhorar características importantes do solo, como retenção de água, disponibilidade de nutrientes e atividade microbiana. 

A alternativa também se relaciona aos princípios da economia circular, já que o biochar pode ser produzido a partir de diferentes resíduos de biomassa, como restos de milho, cascas de amendoim e café e resíduos de madeira. Além de atuar na remediação de contaminantes, sua incorporação pode contribuir para a fertilidade, a retenção de água e o sequestro de carbono no solo. 

Apesar do potencial, os pesquisadores ressaltam que ainda existem desafios para levar a proposta às condições reais de produção agrícola. A composição do biochar pode variar conforme a matéria-prima e o processo utilizado em sua produção; o desempenho do feijão-de-porco depende de condições de solo e clima; e as bactérias introduzidas no ambiente precisam competir com os microrganismos já presentes no solo e resistir a fatores como variações de temperatura e disponibilidade de água. 

Por isso, um dos próximos passos é avançar na validação experimental da estratégia. Os autores destacam a necessidade de estudos de longo prazo em condições de campo para verificar o funcionamento conjunto dos três componentes em diferentes ambientes e avaliar sua viabilidade como prática agronômica sustentável. 

Segundo Baron, o projeto também conta com parceria entre a UFSCar e a empresa Ecobiotech Life Science. Para o docente, a colaboração reforça a importância da aproximação entre universidade e setor privado para o desenvolvimento de pesquisas e de soluções que possam avançar da produção de conhecimento para aplicações na sociedade.

Além da contribuição ambiental, Baron destaca a formação científica proporcionada pelo estudo. O desenho conceitual e a metodologia do estudo tiveram participação direta de Maligeski ainda durante a graduação. No artigo, o estudante aparece como responsável pela conceituação e metodologia, além da elaboração inicial e revisão do manuscrito. 

O artigo "Combined application between remediation and bioremediation enhances soil xenobiotics decontamination" é assinado por Kauan Maligeski, Rômulo Carleial e Daniel Baron e pode ser acessado na íntegra aqui.