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Denise Britto - Publicado em 01-10-2026 10:00
E-book gratuito reúne textos sobre discurso de ódio
Obra é resultado de trabalho coletivo de participantes de Aciepe da UFSCar (Imagem: Divulgação)
Obra é resultado de trabalho coletivo de participantes de Aciepe da UFSCar (Imagem: Divulgação)

Foi publicado um e-book gratuito, que reúne 26 textos de diferentes pessoas autoras que participaram da Aciepe "Análise de discurso, ensino e discursos de ódio: resistência, ressignificação e revascularização discursiva". Como construção coletiva, a obra traz diferentes recortes temáticos como gênero, raça, sustentabilidade e comunicação. O trabalho foi organizado por Lauro Damasceno, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Linguística (PPGL) e bolsista Capes, e Roberto Leiser Baronas, professor do Departamento de Letras (DL), ambos da UFSCar.

O livro homônimo reúne propostas didáticas para se trabalhar a temática dos discursos de ódio em sala de aula e está disponível em versão digital no site da Editora Letraria. Também é possível adquirir em versão impressa, sob demanda. O material é destinado a profissionais e inexperientes que se interessam pela Análise do Discurso, pela temática do discurso de ódio e/ou sobre estratégias didáticas possíveis para se abordar temas sensíveis em sala de aula. "Cada capítulo mantém uma relação de autonomia com os demais, de modo que a leitura de um deles, que se debruça sobre um de terminado tema, não pressupõe nem implica na leitura de outro", completa Damasceno.

O que é discurso de ódio?
A dupla de organizadores trabalha com um conceito de discurso de ódio preconizado no relatório fruto do trabalho coletivo realizado pelo Grupo de Trabalho, proposto pelo então Ministro de Estado dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) do Brasil, Silvio Luiz de Almeida, intitulado "Grupo de Trabalho para apresentação de estratégias de combate ao discurso de ódio e ao extremismo, e para a proposição de políticas públicas em direitos humanos sobre o tema". O grupo publicou o conceito no relatório disponibilizado em julho de 2023.

"Essa definição nos parece convergir com os conceitos trabalhos no e-book (a saber, resistência, ressignificação discursiva e revascularização discursiva), uma vez que todos eles têm como premissa as relações de poder que estabelecem assimetria nas relações; dessa forma, pensar o discurso de ódio, aliado aos conceitos mobilizados na obra, é pensar essas estratégias, hostis, de opressão de pessoas e grupos - acrescentaríamos nós - já marginalizados sócio-historicamente. O discurso de ódio afeta, então, não quaisquer pessoas ou quaisquer grupos de quaisquer maneiras, mas afeta de maneira significativa aqueles que já vivem nas condições deploráveis permitidas e fomentadas pelos grupos dominantes", explica Damasceno.

Principais temas que aparecem na obra
"Talvez seja interessante nós agruparmos os temas tratados em quatro grandes frentes temáticas, quais sejam: opressão; ciência; sociedade; e comunicação", elenca Damasceno.

Na frente temática relativa às opressões, que concentra o maior número de capítulos, são abordados diferentes eixos de discriminação que constituem o funcionamento da nossa sociedade. Assim, temos capítulos sobre gênero (transfobia, misoginia, preconceito (socio-)linguístico, sexismo, luta antimanicomial e violência obstétrica); raça (racismo e intolerância religiosa); e diversidade funcional (autismo e surdez). 

Já na frente temática sobre ciência, há artigos que abordam interseccionalidade e interdisciplinaridade. A terceira frente, sobre sociedade, abriga capítulos sobre discurso punitivista; liberdade de expressão; e sustentabilidade. O último grande grupo que poderíamos formar com fins didáticos, o de comunicação, abriga capítulos relacionados à cultura pop internacional e memes.

Aciepe
A Aciepe "Análise de discurso, ensino e discursos de ódio: resistência, ressignificação e revascularização discursiva", que deu origem ao livro, teve 13 encontros semanais, realizados entre março e julho de 2025, remotamente, via Google Meet, com transmissão ao vivo pelo YouTube. Todas as aulas estão reunidas na nesta playlist e contam com o serviço de interpretação em Libras ofertado pela Coordenadoria de Serviço de Tradução e Interpretação de Língua de Sinais (CoSeTILS) da UFSCar.

Entre os participantes da Aciepe e, por extensão, pessoas autoras do e-book, estão desde jovens cientistas (discentes de graduação, tanto da área de Letras/Linguística quanto de outras áreas, como Computação, História, Direito e Análise Ambiental, da UFSCar e de outras universidades), pós-graduandos de todos os níveis, além de docentes e professores da rede pública de ensino, do Estado de São Paulo predominantemente, mas também de outras regiões do Brasil.

Organização em grupo

Damasceno conta, a seguir, como foi mobilizar o grupo participante da Aciepe para a construção do e-book:

"Trabalhar em um projeto coletivo e científico é sempre desafiador porque exige não somente o manejo de diferentes realidades, produções discursivas e rotinas, mas, sobretudo, porque é um momento e também um movimento centrípeto mesmo, de atração de diferentes corpos para um centro em comum - considerando também especialmente as consequências advindas disso, de aglutinação do diferente, que são, por natureza, inesperadas. Não se sabe se vai ser um grupo super comunicador ou super distante; se vai ser um grupo fortemente interessado pelo tema ou apático; se vão propor novos desdobramentos ou sequer vão atender às propostas de atividade... Enfim, trabalhar com o coletivo é trabalhar com o inesperado, ou melhor, com o diverso, e, felizmente e como geralmente acontece nos trabalhamos que desenvolvemos juntos, com essa turma participante da Aciepe e com esse grupo de pessoas autoras do e-book, nós, professor Roberto Baronas e eu, estabelecemos uma relação muito afetuosa, de trocas constantes e aprendizagens, que possibilitou que as aulas fossem não somente encontros síncronos e que a organização da obra não fosse apenas uma troca mecânica e burocrática de informações; esses momentos geraram, no conjunto, uma nova rede de afeto, que esperamos que seja duradoura", pontua Damasceno.

"Quando propomos esse tipo de atividade (coletiva e, nesse caso, aberta à comunidade externa da UFSCar), é comum que se borbulhe ideias, perspectivas e abordagens que não foram previstas no planejamento da atividade; não por suposta incapacidade em planejar uma atividade e não somente porque se trata, de fato, de um ambiente aberto à construção de conhecimento de maneira horizontal, mas, acima disso, porque é o encontro dos dissensos ali confrontados que produz aquilo que é a nossa preciosidade: as novas formas de se abordar os discursos de ódio, sobretudo em sala de aula. Nesse sentido, compartilhar as discussões levantadas durante o curso não poderia ser parte irrelevante da própria construção dessa Aciepe. Resumidamente, então, eu diria: ferver a água do café, pra nós, significa servir um bolinho também".

A obra conta com o apoio, na UFSCar, do Laboratório de Estudos Epistemológicos e de Discursividades Multimodais (LEEDiM), do PPGL, do DL e da Pró-Reitoria de Extensão (ProEx), além da Capes e do CNPq.