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João Eduardo Justi - Publicado em 21-09-2026 13:00
Estudo internacional aponta caminhos para proteger a Amazônia
Pesquisa mostra eficácia de combinar proteção das florestas com restauração (Foto: Paulo Molin)
Pesquisa mostra eficácia de combinar proteção das florestas com restauração (Foto: Paulo Molin)
Proteger as florestas que ainda estão de pé, evitando tanto o desmatamento quanto sua degradação por incêndios e exploração de madeira, é mais eficiente do que apostar apenas na restauração de áreas já desmatadas. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica Science, que analisou mais de 3 milhões de hectares da Amazônia brasileira e contou com a participação de Paulo Guilherme Molin, professor do Centro de Ciências da Natureza (CCN) da UFSCar, no Campus Lagoa do Sino.

A pesquisa comparou os benefícios para a biodiversidade e para o armazenamento de carbono, além dos custos, de três estratégias de conservação: evitar o desmatamento, impedir perturbações nas florestas provocadas principalmente por incêndios e exploração de madeira e restaurar áreas já convertidas. Embora as ações preventivas tenham apresentado maior custo-efetividade quando consideradas isoladamente, os maiores ganhos foram obtidos com a combinação das três estratégias.

"O principal recado do estudo é que restauração e proteção não devem ser vistas como estratégias concorrentes. Restaurar é fundamental, mas os maiores ganhos para a biodiversidade e para o clima aparecem quando conseguimos, ao mesmo tempo, impedir novos desmatamentos, reduzir a degradação das florestas existentes e recuperar áreas estratégicas", destaca Molin.

O trabalho foi desenvolvido por um grupo internacional de 19 pesquisadores, liderado pela Rede Amazônia Sustentável (RAS), e reuniu cientistas de instituições brasileiras e estrangeiras. Além da UFSCar, participaram, entre outras, a Universidade de Lancaster, a Embrapa Amazônia Oriental, o Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI), as universidades de Oxford, Cambridge, Manchester Metropolitan e Exeter, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Museu Paraense Emílio Goeldi.

Mais de 3 milhões de hectares analisados
A investigação concentrou-se nas regiões de Santarém e Paragominas, no Pará, duas áreas da fronteira agrícola amazônica que, juntas, abrangem mais de 3 milhões de hectares. Os pesquisadores reconstruíram as mudanças ocorridas entre 2010 e 2020 e criaram cenários para estimar o que teria acontecido caso diferentes medidas de conservação tivessem sido adotadas individualmente ou de forma combinada.

A análise reuniu uma ampla base de informações: dados de biodiversidade obtidos em 381 áreas de amostragem distribuídas por 38 microbacias, informações socioeconômicas coletadas em 499 propriedades rurais e imagens de satélite de alta resolução. Os modelos de biodiversidade consideraram dados de 160 espécies de aves e 426 espécies de árvores, além dos estoques de carbono acima do solo.

Os resultados evidenciam diferenças importantes entre as estratégias. Evitar incêndios e exploração de madeira teria mitigado 68,5% das perdas de biodiversidade e 46,8% das perdas de carbono verificadas no período. Impedir o desmatamento teria evitado 28% das perdas de biodiversidade e 60,8% das perdas de carbono. Já a restauração, aplicada isoladamente, compensaria apenas 6,5% das perdas de biodiversidade e 14,7% das perdas de carbono.

Para Molin, os resultados ajudam a dimensionar um aspecto nem sempre perceptível quando a conservação é analisada apenas a partir da cobertura florestal. "Manter a floresta em pé não significa necessariamente mantê-la íntegra. O fogo, a exploração de madeira e os efeitos de borda podem provocar perdas expressivas de biodiversidade e carbono sem que a área deixe de aparecer como floresta. Por isso, combater a degradação precisa caminhar junto com o controle do desmatamento", afirma.

No período estudado, aproximadamente 159 mil hectares foram desmatados, enquanto cerca de 274 mil hectares de florestas primárias foram atingidos por incêndios ou exploração de madeira. Ao mesmo tempo, houve regeneração de aproximadamente 130 mil hectares de florestas secundárias, mas 63% dessas áreas voltaram a ser atingidas pelo fogo. Para os pesquisadores, os números demonstram a dificuldade de recuperar a vegetação enquanto permanecem ativas as causas de sua destruição.

Combinação produz ganhos para biodiversidade e clima
Quando os custos econômicos foram incorporados à análise, a diferença entre as estratégias ficou ainda mais evidente. Para a biodiversidade, evitar perturbações nas florestas apresentou custo-efetividade média aproximadamente três vezes maior que evitar o desmatamento e quase 15 vezes maior que a restauração. Para o carbono, impedir o desmatamento apresentou o maior retorno por recurso investido. Mesmo em simulações nas quais os custos da restauração foram reduzidos em até 95%, ela permaneceu menos custo-efetiva do que as estratégias preventivas.

Isso não significa, porém, que restaurar áreas degradadas seja dispensável. Ao contrário, o estudo mostra que é justamente a integração das diferentes ações que permite reverter as perdas. No cenário em que proteção contra desmatamento e degradação e restauração foram combinadas, a biodiversidade ficaria 22% acima do patamar de 2010, enquanto os estoques de carbono aumentariam 42%. Parte desses resultados decorre de efeitos de sinergia entre as próprias intervenções.

"A restauração ganha força quando está inserida em uma paisagem protegida. Florestas conservadas favorecem a regeneração das áreas próximas, ajudam a conectar fragmentos e reduzem efeitos de borda. O estudo reforça que precisamos pensar essas políticas de maneira integrada e em escala de paisagem", explica o pesquisador da UFSCar.

As conclusões têm implicações para políticas brasileiras relacionadas à conservação e recuperação da vegetação, como o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) e a aplicação do Código Florestal. Os resultados também podem contribuir para programas de REDD+, mercados de carbono e decisões relacionadas ao financiamento climático.

Os autores defendem ainda maior atenção à degradação florestal, incluindo ações para prevenir incêndios e extração ilegal de madeira, garantir o cumprimento das regras de manejo sustentável, reduzir o uso do fogo nas áreas rurais e fortalecer brigadas locais. Embora a análise tenha se concentrado em duas regiões da Amazônia Oriental, os pesquisadores avaliam que as conclusões são relevantes para outras regiões tropicais submetidas simultaneamente a pressões como desmatamento, fogo, exploração de madeira e expansão agropecuária.

O artigo "Protecting tropical forests is more cost-effective for biodiversity and climate than restoration" foi publicado na Science no último dia 17 de setembro. A pesquisa integra a Rede Amazônia Sustentável e contou, entre suas fontes de financiamento, com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Global Centre on Biodiversity for Climate, do Reino Unido.